• Laís Vargas

Tem uma formiga no meu prato (e isso é gourmet)


Um dos meus hobbies é conhecer novos restaurantes. Há 2 anos, decidi comemorar meu aniversário me permitindo gastar um pouco mais para ter uma experiência gastronômica diferente, algo totalmente novo para mim.


Escolhi comemorar com um jantar no D.O.M. Restaurante, do conceituado chef brasileiro Alex Atala, o único estabelecimento no Brasil que havia conseguido a proeza de conquistar duas estrelas do Guia Michelin até então. Ou seja, o melhor restaurante do país e um dos melhores do mundo.


Ao ligar para reservar, tive a primeira surpresa: restaurante lotado nos próximos dois finais de semana - Cadê a crise?, pensei. Mesmo assim, arrisquei e fui sem reserva mesmo, na esperança de alguém desmarcar. Dito e feito.


A experiência Michelin

Para o jantar a única opção é o Menu Degustação e suas três variações (de tamanho e de valor). Optei pelo menu intermediário composto por: três entradas, três pratos principais, aligot e uma sobremesa.


No primeiro momento já senti algo diferente: muitos garçons — praticamente um por mesa — maitre super educado, louças e talheres incríveis e um clima intimista completava o ambiente.


O couvert vale a pena e, logo em seguida, iniciou-se o Menu Degustação. A cada prato que chegava na mesa, o garçom explicava com detalhes, desejava bom apetite e pronto! Pouca comida no prato, apresentação ultra-mega-blaster gourmet e momentos de tensão porque você não faz ideia do que está comendo (uma vez que tudo tem nome estranho ou é de origem amazônica).


Expectativa vs Realidade


A expectativa do próximo prato é interessante, já que você não sabe o que está por vir. Um dos pratos não estava bom, era uma emulsão de sei-lá-o-quê com vegetais XYZ. Sou o tipo de pessoa que experimenta, ainda mais quando estou no melhor restaurante do Brasil, mas esse eu não curti tanto.


O maitre retirou o prato, perguntou se eu não havia gostado e disse que traria outro prato. Em poucos minutos, um novo prato (mais simples e menos estranho) estava na minha frente.


Com pouca comida em cada “rodada”, a sensação que dá é que você sairá de lá e vai passar no Mc Donald’s para devorar um Cheddar McMelt. Ledo engano. No último prato (um cordeiro ma-ra-vi-lho-so) eu não aguentava mais e já estava rezando para a sobremesa vir logo.


Após o último prato, o garçom serve uma pequena porção de aligot, uma espécie de purê de batata com muito (eu disse MUITO) queijo. O aligot faz parte do Menu Degustação para “limpar o paladar” entre os pratos e a sobremesa. Foi o que eu mais gostei, desde a apresentação até o sabor - além de ter sido o melhor aligot da minha vida!

A hora da verdade


Finalmente chegou a hora da sobremesa para encerrar com um doce na boa. Mas quando o prato chegou não pude acreditar. Sou viciada em chocolate e, sim, eu esperava uma sobremesa de chocolate, mas ao mesmo tempo sabia que seria muito óbvio para um restaurante com duas estrelas Michelin.


Ao ver o prato, surpresa! Formiga. Uma não, duas formigas! 

Nesse momento eu parei de prestar atenção no discurso do garçom e olhei fixamente para as duas formigas no meu prato. Experimentei um tipo de sorvete (que não tinha a formiga) e uma espécie de mousse, que tinha uma formiga em cima, porém driblei o animal morto e não comi. Não dava para mim.


Parei, juntei os talheres e esperei ser abordada pelo maitre. Ele retirou os pratos e nem precisou perguntar se eu tinha gostado ou não, ele traria outra sobremesa. Nesse momento, não tinha expectativas, nada seria pior que uma formiga no prato.


Sabe aquela formiga saúva? Aquela grande, bem preta, que pica? Tinham duas dessas no meu ex-prato de sobremesa. Depois disso, o que poderia nos surpreender?


Graças a Deus, nada.


A segunda sobremesa era muito agradável, uma mousse de manga flambada com um pouco de chocolate e mais um monte de coisas que não sei o nome. O que sei é que estava muito bom e valeu muito a pena dispensar as formigas.


Fechando com chave de ouro


Como era meu aniversário, recebi um mini pão de mel com uma vela e um tímido “parabéns” do garçom. Achei simpático. Muito mais a minha cara que o parabéns alvoroçado do Outback (não entendam isso como uma crítica, o Outback é meu restaurante preferido!).


Depois disso, nada pior que receber a conta.


Para amenizar, junto dela, o garçom entregou meu menu degustação personalizado, com todos os pratos que degustei (inclusive os que devolvi).


É caro, foi a conta mais cara da minha vida, mas valeu pelo momento especial, pela comemoração, pela experiência totalmente nova e, claro, pela história de servirem duas formigas saúva no melhor restaurante do país (e isso ser considerado gourmet).


Às vezes me sinto arrependida de não ter experimentado a formiga. Mas, logo em seguida, penso no valor da conta e, realmente, duas formigas não custam aquele valor…

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