• Laís Vargas

O que as escolas deveriam ensinar


Fonte: Pexels

Eu era o tipo de aluna mediana na escola. Passei por fases boas e ruins como qualquer criança e adolescente normal.


Sempre fui organizada, gostava de manter meu caderno todo bonitinho e cuidar dos meus materiais. Me doava de corpo e alma nas aulas de educação física e redação, mas não curtia as outras com a mesma empolgação.


Até a sétima série foi tudo bem, nunca tinha ficado de recuperação. Na oitava, fiquei de recuperação em física por 3 décimos (sim, por 0,3 ponto). No primeiro ano do ensino médio, a primeira porrada: repeti de ano.


Com isso, fiz o ensino médio em 4 anos e não em 3, o que fez com que eu entrasse na faculdade "apenas" com 18 anos. A minha grande vantagem foi que, mesmo tão nova, eu sabia exatamente o que eu queria fazer da vida e onde eu queria estudar: Marketing na ESPM-Rio.

Consegui vencer esse objetivo. Com a ajuda dos meus pais, que me deram todo o suporte na mudança de cidade e pagamento dos estudos, concluí a faculdade com o louvor que nunca tive na escola: presidente da turma, oradora da classe, CR altíssimo, TCC nota 10 e prêmio de excelência acadêmica.


Essa da foto ao lado sou eu, no final de 2010, me graduando em Administração & Marketing na faculdade que tanto sonhei.


Mas eu não vim aqui para me vangloriar, afinal você leu que eu repeti um ano no colégio, né? Fiquei de castigo nessa época, meus pais me proibiram de jogar basquete, entre tantas outras restrições. O que eu quero chamar atenção aqui é sobre o que aprendemos na escola e o método utilizado no Brasil.


Reflexão Escola x Faculdade


Após me formar, refleti bastante sobre a diferença gritante entre meu desempenho na escola e na faculdade.


Cheguei a conclusão de que, na graduação, tive disciplinas que faziam sentido para a Laís do futuro, a Laís profissional que eu queria me tornar. Claro que tiveram matérias que eu não gostava, mas no geral eu via sentido em tudo aquilo. Ao contrário do colégio, que todos os alunos estudavam exatamente o mesmo conteúdo.


Eu nunca entendi porque todos nós aprendemos as mesmas coisas.


Se temos gostos, habilidades, desejos e sonhos diferentes, por que somos tratados como robôs? Isso nunca ficou claro na minha cabeça, até que eu entendi o que estava errado: o método. Vou falar dele mais adiante...


A grade curricular


Em vários países, as crianças e adolescentes possuem grades curriculares distintas e suas disciplinas são de acordo com suas habilidades e escolhas. Em Portugal, por exemplo, existe uma instituição chamada Escola da Ponte, em uma cidade perto de Porto.


Nesse colégio português, os alunos não são divididos por séries. Cada um precisa fazer um planejamento quinzenal do que será estudado e tirar as dúvidas com colegas de outras séries ou professores mesmo. Cada aluno ainda tem uma responsabilidade anual que não inclui as disciplinas tradicionais, que pode ser cuidar dos jardins, ser guia para visitantes etc.


Isso não é demais? Pode parecer um pouco "pra frentex" se olharmos a cultura brasileira e nosso lifestyle, mas é um método completamente diferente!


A youtuber Jout Jout fala um pouco sobre a Escola da Ponte nesse vídeo, vale a pena assistir. Acredite: é muito mais interessante e surpreendente do que pode parecer.



Eu não preciso falar muito sobre a grade escolar brasileira, né? Todos aprendem basicamente as mesmas coisas, têm um padrão a ser seguido pelo MEC e, tirando o ensino público precário, as escolas tradicionais possuem as mesmas disciplinas e mantém professores durante muitos anos.


Fico um pouco assustada quando vejo que 90% dos meus professores do Ensino Médio ainda dão as mesmas aulas no colégio que estudei (e eu concluí em 2006, tem mais de 10 anos!).


O que aprendemos e não faz tanto sentido assim


Para algumas pessoas talvez faça sentido ter aprendido a fórmula de Báskara na 6ª série. Pra mim, particularmente, não. Até hoje não sei para quê diabos serve (com certeza não aprendi como deveria, apenas decorei a fórmula e fiz contas para chegar no resultado que o professor desejava).


Aqui vou fazer uma pequena lista de assuntos que não fizeram sentido pra mim (talvez a sua lista seja um pouco - ou bastante - diferente da minha, ok?):

  • Classificar frases em "orações subordinadas simples";

  • Identificar o tipo de sujeito da oração;

  • Báskara, log e outros nomes que nem lembro mais de matemática;

  • Tipo de clima (úmido, árido, semi-árido...);

  • Tipos de solo (esse não sei nem dar um exemplo);

  • Botânica (até é interessante, mas...).

Não serei injusta aqui, aprendemos muitas coisas legais também. Eu mesma aprendi conceitos e técnicas que carrego pra vida:

  • As guerras mundiais e revoluções que aconteceram;

  • A história do Brasil, principalmente a política;

  • Raciocínio lógico;

  • As leis de Newton;

  • Redação e o poder da escrita.

O que deveríamos aprender para a "escola da vida"


Eu sinto falta de muita coisa. Tem muito conhecimento que só adquiri depois de mais velha, por conta própria, mesmo até depois da graduação. Fui atrás de informações que não tive quando era uma pequena criança saltitante e feliz, mas que seria de grande valia para meu futuro pessoal e profissional.


Vou fazer uma lista com alguns exemplos do que eu acredito que a escola ideal deva ensinar. Se um dia eu tiver filhos, escolherei as escolas que fogem das disciplinas tradicionais e preparem crianças para a vida.

  • Educação financeira: como poupar, investir, gastar melhor seu dinheiro e a importância de ter mais de uma fonte de renda;

  • Desenvolver a veia empreendedora: como criar oportunidades, resolver problemas e solucionar questões com as ferramentas disponíveis;

  • Programação: se o mercado digital está assim hoje, imagina daqui a 10, 20, 30 anos?;

  • Idiomas: inglês com professores nativos, mas também mandarim, por exemplo. Proporcionar intercâmbio com escolas fora do Brasil por um semestre;

  • Interpretação: essa é uma arte que pouco falarmos e praticamos. Precisamos saber interpretar um livro, um texto, uma emoção, um sentimento, uma relação. Através de teatro e aulas com experiências isso se torna mais fácil;

  • Projetos inovadores: para desenvolver criatividade, trabalho em equipe, espírito de liderança e aprender sobre tirar ideias do papel;

  • Princípios de direito: ninguém precisa ser advogado, mas entender os poderes que regem nosso país, leis, Constituição e deveres como cidadãos é o básico que deveríamos aprender;

  • Primeiros socorros: você sabe socorrer alguém? Então, eu não sei. Acho que isso já diz tudo, né? :)

  • Inteligência emocional: o que nós, adultos, mais precisamos. Ponto.

O método


Muito além das disciplinas e grade que deveríamos ter no colégio, será que o método não é o grande vilão dessa história?


Mais do que ter os mesmos professores durante anos é ver que suas aulas são exatamente iguais. Com os mesmos filmes nas aulas de história, os mesmos livros para ler nas aulas de literatura, os mesmos esportes nas aulas de educação física.

Por que as aulas precisam ser expositivas?
O professor é uma espécie de autoridade dentro da sala de aula?
Se não estamos bem no dia de uma prova, devemos ser punidos por isso?
Vamos ter que decorar datas e fórmulas que poderão ser consultadas no futuro?

No curto prazo, acredito que a grade curricular e suas disciplinas possam ser alteradas. Mas, no longo prazo, o método como o todo precisa mudar para termos uma revolução na educação do Brasil.


Tem muita gente falando em educação 2.0 (já li até o termo Educação 4.0), mas será que já concluímos a fase 1.0?

Leia esse e outros artigos no meu LinkedIn.